Este era, em teoria, o jogo mais apelativo desta eliminatória da FA Cup em termos de nomes. Mas o contexto das duas equipas não podia ser mais diferente. O Tottenham chegava afundado numa crise de resultados e, pior ainda, de futebol: uma equipa sem construção, sem criatividade, reduzida a bolas longas e cruzamentos sem sentido. Do outro lado, um Aston Villa sólido, confiante e a confirmar, semana após semana, que é uma das melhores equipas em Inglaterra nesta temporada.
Para o Tottenham, não havia desculpas. Jogar a FA Cup “a sério” era uma obrigação. Este clube precisa de lutar por algo, e a ideia de desvalorizar a competição não faria sentido nenhum. Thomas Frank entrou com força máxima, mas isso, por si só, não resolve os problemas estruturais.
Desde cedo percebeu-se o tom do jogo. Sem bola, o Tottenham defendia num 4-4-2 muito baixo, com todos os jogadores atrás da linha da bola. Houve um lance aos 12 minutos que resumiu tudo: os 11 jogadores do Tottenham dentro do seu meio-campo, enquanto os centrais do Aston Villa estavam à frente da linha do meio-campo. Para uma equipa que se vende como ofensiva e “atrevida”, é pouco.
O Aston Villa, mesmo sem estar brilhante, foi mais inteligente. Aos 22 minutos, McGinn inicia a jogada, Malen segura no físico, Buendía aparece solto e finaliza. Um golo simples, mas bem construído, que cai num momento em que o Tottenham até estava melhor no jogo. Um balde de água fria.
A primeira parte foi-se tornando cada vez mais desconfortável para os Spurs. Richarlison sai lesionado, entra Kolo Muani, Xavi Simons tenta agitar, Mathys Tel dá algum desequilíbrio… mas tudo muito inconsequente. E quando parecia que a primeira parte iria acabar com “apenas” 1-0, surge o segundo golpe: perda de bola, circulação rápida do Aston Villa, toque delicioso de Buendía de calcanhar e Morgan Rogers a finalizar. 2-0. Vaias em casa. Justificadas.
Na segunda parte, o Tottenham entrou como se exigia. Mais posse, mais pressão, mais risco. Xavi Simons começa a aparecer mais e, aos 54 minutos, Kolo Muani recupera a bola e Oddobert finaliza. O jogo estava vivo.
Mas o problema do Tottenham voltou ao de sempre: incapacidade para sustentar momentos bons. A pressão funcionava, sim, mas com demasiadas faltas, pouco controlo e zero banco para mudar o rumo do jogo. Thomas Frank demorou, e muito, a mexer. Quando o fez, já o Aston Villa tinha recuperado a posse de bola, o ritmo e a tranquilidade.
O Tottenham ainda marcou mais uma vez, novamente por Xavi Simons, mas o fora de jogo era claro. A partir daí, o jogo morreu lentamente. O Villa geriu, o Tottenham perdeu-se. No final, não há choque nenhum: o Aston Villa segue em frente e o Tottenham, mais uma vez, fica pelo caminho.
Pós-jogo
Mais uma eliminação, mais uma desilusão para o Tottenham, mas também mais uma demonstração de maturidade competitiva do Aston Villa. O 2-1 em Londres não foi fruto do acaso. Foi um jogo ganho por uma equipa que sabe sofrer, sabe esperar e sabe castigar os erros.
O Tottenham até reagiu bem no início da segunda parte, marcou cedo, ganhou algum ímpeto e durante alguns minutos deu a sensação de que podia ir atrás do empate. Mas esse momento durou pouco: a partir dos 60/ 65 minutos perdeu completamente o controlo do jogo e deixou o Aston Villa a gerir o ritmo com uma relativa tranquilidade.
Thomas Frank sai novamente fragilizado. A equipa continua sem uma identidade clara. Solanke entrar apenas aos 82 minutos é difícil de justificar.
Mas seria injusto olhar apenas para o lado negativo do Tottenham. O Aston Villa, mesmo sem fazer um jogo brilhante, foi extremamente competente. Soube explorar os espaços, foi clínico quando teve oportunidades e mostrou uma maturidade que não se constrói de um dia para o outro. Unai Emery nunca entrou em pânico, mesmo depois de sofrer o golo.
É exatamente isto que separar equipas em crescimento de equipas perdidas: o Villa sabe quem é, sabe como joga e sabe o que fazer. O Tottenham não.
