Benfica 4 – 2 Real Madrid

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A noite da Luz começou com cara de milagre improvável e acabou como uma dessas histórias que só a Champions League permite. Contexto limite, pressão máxima, contas feitas com calculadora na mão e um Benfica obrigado a jogar no fio da navalha. Era ganhar e rezar, e o Benfica escolheu não rezar primeiro — escolheu atacar.

atacar. Desde os primeiros minutos ficou claro que o Benfica ia levar o jogo para o caos. Pressão alta, ritmo insano, decisões rápidas, tudo ou nada. Aos seis minutos já havia confusão na área do Real Madrid, aos 13′ Pavlidis já tinha desperdiçado uma oportunidade clara por um mau primeiro toque e aos 15′ Courtois já era protagonista com uma defesa absurda a queima-roupa. O pénalti inicialmente assinalado e depois revertido pelo VAR não travou o ímpeto encarnado; pelo contrário, só aumentou a sensação de urgência.

O Real Madrid, confortável na classificação, parecia não estar preparado para este ambiente. Faltava-lhe algo essencial para noites assim: controlo emocional e controlo de ritmo. Sem um jogador que pausasse o jogo, que respirasse com bola, o Madrid deixou-se levar pelo jogo que o Benfica queria. E nesse jogo caótico, intenso, vertical, o Benfica foi claramente superior.

Prestianni, Schjelderup e Pavlidis davam mobilidade constante, Sudakov aparecia entre linhas e a equipa encarnada num todo fechava muito bem o centro quando perdia a bola.

E ainda assim, como tantas vezes acontece com o Real Madrid, bastou um momento de lucidez. Aos 30 minutos, num dos raros ataques organizados, Raúl Asensio cruza com qualidade e Mbappé, clínico, ataca a frente de Dedić e cabeceia para o golo. Um soco no estômago num jogo que o Benfica dominava.

A resposta foi imediata e emocional. Se o Benfica já jogava com o coração fora do peito, a partir daí jogou com raiva. Aos 36 minutos, Pavlidis explora de forma perfeita o erro grosseiro de Asensio, cruza sem oposição e Schjelderup aparece no tempo certo para empatar, com Courtois a ficar “mal” na fotografia.

Barreiro teve uma chance clara dentro da pequena área, Pavlidis e Prestianni continuavam a criar, Dedić aparecia constantemente nas costas da defesa madridista. O Benfica podia, sem exagero, ter ido para o intervalo com quatro ou cinco golos. E acaba por ir a ganhar por 2-1 graças a um pénalti claro, confirmado pelo VAR, com Pavlidis frio a bater para o meio.

Os números ao intervalo são quase surreais: 2.42 de xG para o Benfica contra 0.35 do Real Madrid. Mais remates, mais perigo, mais jogo. O Real tinha a bola, mas o Benfica tinha o jogo.

Na segunda parte, esperava-se uma reação mais estruturada do Real Madrid. Ela até começou a aparecer e logo aos 47, Vini Jr desperdiça uma chance clara de cabeça. Foi um aviso. Mas o Benfica soube ler o momento. Baixou ligeiramente o bloco, compactou linhas e passou a apostar no contra-ataque. E foi letal. Aos 53 minutos, Schjelderup volta a ser decisivo: recebe na esquerda, entra na área, puxa para dentro e remata para o poste mais próximo. Asensio tenta bloquear, falha outra vez, e a bola entra. 3-1. Delírio absoluto na Luz.

Mesmo assim, o Real Madrid não morre. Tem Mbappé. E quando tem Mbappé, basta um detalhe. Aos 58, Güler inventa espaço onde não parecia existir, engana dois jogadores, cruza com critério, Bellingham limpa a zona com o corpo e Mbappé finaliza solto. É o segundo dele, o 13º nesta Champions. Qualidade pura num jogo em que o Real esteve quase sempre desconfortável.

A partir daí, o jogo entra numa fase de desgaste físico e nervoso. O Benfica continua a ganhar, mas as pernas começam a pesar. E aqui surge uma das grandes críticas da noite: a inércia de Mourinho. Aos 80 minutos, nenhuma substituição. Num jogo de intensidade altíssima, isso é quase suicídio. O Real Madrid começava a cheirar o empate.

As expulsões de Raúl Asensio e Rodrygo, ambas por acumulação de amarelos, deixam o Real com nove jogadores. O Benfica percebe que não chega ganhar, precisa de marcar mais um. A Luz empurra, a bola aérea vira arma, e aos 90+7 surge o momento mais surreal da noite. Livre para a área, confusão, e Trubin, guarda-redes, aparece como um ponta de lança e cabeceia para o fundo da baliza. Um guarda-redes a marcar num jogo de Champions para salvar a equipa. É roteiro de filme.

Pós-jogo

Este foi um daqueles jogos que entram diretamente para a memória coletiva do clube. Não pela perfeição, mas pela coragem. O Benfica jogou e atropelou um Real Madrid cheio de estrelas, mas vazio de controlo.
Schjelderup foi gigante, Pavlidis foi incansável, Sudakov deu critério e a equipa, como um todo, entregou-se como há muito não se via. Mesmo com falhas defensivas e momentos de ingenuidade, o Benfica nunca deixou de acreditar.
Do lado do Real Madrid, Mbappé saiu valorizado: dois golos e perigo constante. Ambos seguem vivos e vão para os Playoffs. Esta noite a história foi toda da Luz e noites assim explicam porque a Champions não é só futebol.

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