O Tottenham chegava fragilizado no campeonato, perdido na tabela e, sobretudo, perdido na identidade. A temporada tem sido errática, sem um fio condutor claro e Thomas Frank continua a dar a sensação de alguém que ainda procura entender o que esta equipa é ou o que pode ser. Do outro lado, o Manchester City sabia que não podia falhar. A distância para o Arsenal ainda era grande, mas vencer em Londres significava, pelo menos, manter a pressão viva.
Desde o apito inicial, o jogo deixou claro quem se sentia mais confortável no cenário. O City assumiu a bola, empurrou o Tottenham para trás e encontrou espaços com naturalidade. Já o Tottenham, sempre que tinha posse, esbarrava no mesmo problema: falta de criatividade pelo meio.
Aos 11 minutos, o City transformou superioridade em vantagem. Pressão alta, recuperação rápida e Haaland a soltar para Cherki. O francês recebeu pela direita, gingou, ganhou meio metro a Drăgușin e rematou. O desvio do central romeno traiu Vicario e abriu o marcador. 0-1. Um lance simples, mas que mostrou a diferença de qualidade individual.
O jogo seguiu sem um controlo absoluto de nenhuma das equipas, mas sempre com o City mais confortável. Cherki estava inspirado, constantemente a desequilibrar e aos 23 minutos voltou a fazer estragos: entrou na área, deixou Romero para trás, sentou Drăgușin com uma finta e só não marcou porque Vicario respondeu com uma defesa absurda.
Xavi Simons era o único a tentar algo diferente, mas muitas vezes exagerava na condução. Aos 36 minutos, teve uma boa oportunidade, mas demorou a decidir e perdeu o momento do remate.
O segundo golo do City acabou por surgir perto do intervalo, aos 44 minutos, num lance que espelhou bem as fragilidades defensivas do Tottenham. Drăgușin falha na saída, a bola chega a Bernardo Silva, que com inteligência serve Semenyo já dentro da área. Sem marcação, o extremo só teve de tirar de Vicario. 0-2. Golo justo para uma equipa mais organizada, mais clara nas ideias e mais perigosa.
A segunda parte trouxe um Tottenham completamente diferente. Mais agressivo, mais alto no campo, mais intenso emocionalmente. Logo aos 51 minutos, Xavi Simons encontra Udogie dentro da área e Donnarumma é obrigado a uma grande defesa. Era o primeiro aviso.
O golo surge aos 52 minutos. Xavi Simons tira um passe de trivela delicioso para Solanke, que domina, aguenta no físico, puxa para dentro e remata. Guéhi tenta o corte, desvia e acaba por fazer autogolo. Há discussão, há debate, mas o que interessa é o impacto: 1-2 e jogo reaberto.
O Tottenham cresce, empurra o City para trás e passa a jogar no meio-campo ofensivo. A pressão aumenta, Guardiola protesta, leva amarelo e o City perde controlo emocional. Aos 70 minutos, vem o momento da noite. Gallagher cruza da direita, Solanke aparece em desequilíbrio e inventa um escorpião sem saltar, num movimento a a cair, encobrindo Donnarumma. Um golo de instinto puro e o 2-2 era real.
A partir daí só deu Tottenham durante largos minutos. Xavi Simons voltou a testar Donnarumma de fora da área aos 75, Vicario praticamente não trabalhou e o City só respirou quando conseguiu voltar a segurar a bola, já perto do fim. Ainda houve um susto num livre aos 82 minutos, com Guéhi a falhar de forma feia, mas o golo da vitória não apareceu.
Pós-jogo
O resultado diz muito sobre as duas equipas e não é tudo positivo. O Manchester City fez uma primeira parte de alto nível, controlou o jogo, foi eficaz e parecia ter tudo resolvido, mas voltou a mostrar fragilidades. Recuou emocionalmente, perdeu agressividade e deixou-se envolver pelo ambiente.
O Tottenham, por outro lado, voltou a confirmar um padrão curioso desta temporada: sofre, erra e tudo parecido perdido, mas reage positivamente depois do intervalo. A segunda parte foi de alma, de intensidade e de crença. Solanke foi decisivo, Xavi Simons assumiu o jogo e a equipa ganhou vida quando deixou de pensar tanto e passou a sentir o jogo.
Ainda assim, o empate não muda o essencial. O Tottenham continua sem identidade clara, dependente de momentos e de reações. O City perde dois pontos que não se podia perder se quer realmente incomodar o Arsenal.
Um jogo partido em dois atos. Um City dominante que não matou e um Tottenham frágil que nunca desistiu. O Empate deixa mais perguntas do que respostas.
