Primeira mão dos playoffs da Champions e daqueles jogos que, no papel, muita gente olha e pensa que é desequilibrado… mas quem acompanha este Club Brugge já sabe que não é bem assim. Equipa chata, intensa, que não se intimida, e voltou a provar isso frente ao Atlético Madrid.
O jogo até começa dentro do guião mais previsível. Atlético com mais experiência, mais maturidade competitiva, a tentar controlar o ritmo e o penálti cedo acaba por facilitar ainda mais esse plano. Lance algo amador defensivamente, VAR chama e Julián Álvarez não perdoa. Remate forte, sem hipótese para Mignolet.
A questão é que o golo não matou o Brugge: acordou-o.A partir daí, a primeira parte tem muito mais Brugge do que Atlético em termos de jogo corrido. Posse mais longa, pressão imediata na perda, circulação paciente e um Atlético com muitas dificuldades para sair a jogar. Era recuperar e despejar longo. Muito pouco para quem estava em vantagem.
O Brugge ia empurrando, criando aproximações, remates de meia distância, lances trabalhados, Oblak chamado a intervir e a sensação era clara: o jogo estava mais perto do empate do que do 0-2.
Nos descontos, bola na área, desvio de Griezmann e Lookman aparece para encostar. 0-2 completamente contra o momento do jogo. Frio, clínico e algo muito Atlético.
Só que a segunda parte vira o guião ao contrário. O Brugge entra sem medo, sobe linhas, aumenta intensidade e começa a expor algo que se viu várias vezes esta época no Atlético: dificuldade em controlar jogos quando perde o conforto emocional.
O 1-2 nasce com naturalidade, Onyedika oportunista após defesa de Oblak, e pouco depois vem mesmo o empate por Tresoldi: jogada pela esquerda, defesa espanhola passiva, finalização simples. Em 15 minutos, o que parecia resolvido fica totalmente aberto. Mérito total do Brugge que nessa fase era claramente melhor. Mais agressivo, mais vertical e mais vivo.
O jogo parte depois para um caos controlado, mais transições, menos cálculo. Sørloth ainda acerta no ângulo, ameaçando devolver vantagem ao Atlético, mas quem chega ao 2-3 é o próprio Brugge, da pior forma. Auto-golo de Ordóñez num cruzamento rasteiro, daqueles lances ingratos que castigam uma exibição que estava a ser muito competente.
O Atlético estava a ganhar sem merecer. Muito respeito pelo que o Brugge fez em campo, pela coragem e pela forma como anulou momentos de controlo espanhol.
A justiça aparece no final do jogo: Tzolis arranca, finaliza, o fiscal anula, mas VAR valida. 3-3. Explosão no estádio e resultado que, sinceramente, espelha muito melhor o que foi o jogo.
Pós-jogo
Empate que deixa tudo aberto para o segundo jogo, mas com leituras interessantes.
O Atlético volta a mostrar duas caras: letal quando tem espaço e conforto, mas vulnerável quando é empurrado e obrigado a defender momentos longos sem bola.
Já o Brugge ganha ainda mais respeito europeu. Não só pelo resultado, mas pela personalidade. Perder 0-2 e continuar a jogar da mesma forma, sem medo, sem baixar bloco, diz muito da equipa.
O empate não foi sorte, foi consequência.
