O jogo já vinha carregado de contexto para o Man United. Não tanto pelo Burnley, mas pelo próprio United. Era o primeiro jogo após a saída de Ruben Amorim, uma decisão que continua a dividir opiniões, mas que para muitos (eu incluído) foi acertada, mesmo que no timing errado. Do outro lado estava um Burnley em queda livre, 19º classificado, 11 jogos sem vencer e com números ofensivos miseráveis. Ainda assim, não era um jogo simples. O foco estava claramente no United: provar que a mudança fazia sentido.
Darren Fletcher monta a equipa num 4-2-3-1, algo que por si só já trouxe um pequeno alívio. Nada de três centrais, finalmente. Bruno Fernandes regressa de lesão e volta à sua posição natural, médio ofensivo, onde é claramente diferenciador.
O jogo começa e logo aos 7 minutos surge um péssimo remate de Casemiro. Até dava gosto ver o United sem três centrais, com mais gente por dentro e mais bola. Mas cedo ficou claro que a organização defensiva continuava a ser um problema. O Burnley não precisava de muito para criar perigo.
O golo surge num momento em que o Burnley praticamente não tinha feito nada. Um belo passe do Hannibal a rasgar, Humphreys cruza com demasiado espaço e Heaven acaba por desviar a bola para a própria baliza. Autogolo, má leitura defensiva e Casemiro também mal a fechar o espaço. O Burnley estava a ganhar sem rematar à baliza, e o United outra vez em modo “como é que isto nos acontece”.
A partir daí, o United passa a ter mais posse, mas a pergunta mantinha-se: e agora, o que fazem com ela? Casemiro volta a errar num cruzamento aos 21 minutos, numa clara falta de sintonia com Cunha. Aos 23, finalmente algo positivo: cruzamento de Bruno, Sesko cabeceia bem, mas a bola sai central. Ainda assim, já se via que com o Bruno o jogo tinha outra ideia.
Mesmo assim, Sesko perde bolas em excesso, duas vezes em menos de um minuto, e o Burnley continua confortável. Aos 27, Humphreys salva em cima da linha um cabeceamento de Cunha. Aos 28, o United até marca, mas o golo é anulado por falta de Martínez sobre Walker. O cenário era surreal: zero remates enquadrados do Burnley, vantagem no marcador e um United claramente nervoso.
O problema maior estava no meio-campo. O United deixava um buraco enorme entre linhas, uma verdadeira autoestrada para o Burnley explorar, sobretudo pelo lado esquerdo, onde insistiam constantemente. Aos 41, Sesko volta a falhar: boa desmarcação, puxa para o pé direito e remata fraco, rasteiro, para o meio da baliza. Fica cada vez mais claro que o pé direito não é amigo dele.
Na segunda parte nasce o primeiro golo de Šeško. Bruno recebe de frente, levanta a cabeça e mete um passe vertical perfeito, a rasgar os dois centrais. Šeško ataca o espaço com timing certo e finaliza de primeira, com o pé esquerdo, sem hesitar. Um golo simples, mas muito revelador: movimento inteligente, confiança na finalização e, sobretudo, serviço de qualidade.
O segundo golo é ainda mais simbólico. Já com o United por cima, Dorgu ganha profundidade pela esquerda, cruza com critério e Šeško aparece na zona certa, atacando o primeiro poste com agressividade. A finalização é limpa, cheia de convicção, completamente diferente do avançado inseguro que se via noutros jogos. Aqui não há improviso: há leitura do lance, ataque ao espaço e frieza. São dois golos de ponta-de-lança a sério, potenciados por um coletivo que, por momentos, funcionou.
Mas esse momento durou pouco. A saída de Bruno Fernandes retirou ao United aquilo que o mantinha organizado. A equipa perdeu pausa, perdeu ligação e voltou a jogar por impulsos. O Burnley percebeu isso e voltou a crescer. O golo do empate surge num lance de qualidade individual, mas também de permissividade defensiva. Anthony recebe à entrada da área sem pressão real, tem tempo para enquadrar e rematar em arco para o ângulo. É um grande golo, sim, mas nasce de uma defesa que já estava em modo “sobrevivência”.
Pós-jogo
Empate que acaba por não servir a ninguém. O United até fez um bom jogo ofensivo, mas isso tem nome: Bruno Fernandes. Enquanto esteve em campo houveram ideias, passes a rasgar, ritmo e confiança. Sai o Bruno e parece que acabou-se o futebol. Simples assim.
Šeško foi claramente o ponto positivo. Dois golos, presença constante, confiança e rematou como nunca tinha rematado antes (pelo Man United). Ironicamente mostrou mais em 90 minutos sem o Amorim do que vários jogos com ele. Mérito dele, mas também mérito de finalmente ter alguém a meter bolas com qualidade.
Defensivamente? Um desastre disfarçado. Heaven teve um daquele jogos para esquecer. Quando o United precisava de controlar o jogo… sofre um belo golo de Anthony.
O Burnley fez o jogo deles: fechados, sofrer e aproveitar erros. E conseguiram. Não porque foram brilhantes, mas porque o United nunca sabe matar jogos. O Man United é sim melhor sem o uso de 3 centrais, mas continua frágil.
Empatar com o 10º classificado depois de estar a ganhar 2-1 não é um bom resultado. Existem sinais positivos, mas o clube continua longe, muito longe, de ser uma equipa séria.
