O jogo entre Sunderland e Manchester City colocava frente a frente duas realidades completamente diferentes da Premier League. De um lado, o Sunderland, o verdadeiro “Mirassol” do campeonato inglês, uma equipa que tem sido a grande surpresa da época. Do outro, o Manchester City de Pep Guardiola, um tubarão em plena perseguição à liderança.
O Sunderland chegava a este jogo com três partidas sem perder, dois empates e uma vitória marcante no Derby de Tyne-Wear frente ao Newcastle. Uma campanha impressionante que já os tinha colocado em quarto lugar por volta da décima jornada e que, à entrada para este encontro, os encontrava na sétima posição. Uma vitória significaria chegar aos 31 pontos e subir ao quinto lugar. Curiosamente, Wilson Isidor, artilheiro do Newcastle na Premier League, começava a partida no banco. Um dado ainda mais surpreendente é o facto de o Sunderland ter sofrido apenas mais um golo do que o próprio Manchester City nesta edição da Premier League.
Do lado do City, falamos de uma equipa que vinha numa sequência de nove vitórias consecutivas e que procurava mais três pontos para ficar apenas a dois do Arsenal, que já tinha jogado nesta jornada. Guardiola apostava novamente na dupla mais habilidosa da Premier League, Foden e Cherki, dois jogadores encarregues de infernizar qualquer defesa. À frente, Haaland, artilheiro do City e da liga, somava 19 golos, mais do que equipas inteiras como Wolves ou Nottingham Forest, e apenas menos um do que Everton, Burnley e o próprio Sunderland. Cherki, por sua vez, liderava a tabela de assistências com sete, empatado com Bruno Fernandes. No último confronto entre as equipas, o City tinha vencido por 0-2, com golos de Aguero e Leroy San e a minha previsão apontava para um novo triunfo dos citizens por 2-0.
A primeira parte começou com um susto logo aos três minutos, quando Aké sentiu o joelho e chegou a ser preparado o aquecimento de Gvardiol, mas o defesa neerlandês acabou por continuar em campo. Aos cinco minutos, o City chegou mesmo ao golo por Bernardo Silva, após cruzamento de Cherki e desvio de Haaland, mas o lance foi anulado por fora de jogo de Bernardo. O guião parecia óbvio: o City a dominar a posse de bola e o Sunderland à espera de um erro para sair em contra-ataque. A grande questão era perceber se a defesa física e organizada do Sunderland conseguiria aguentar o ataque recheado de estrelas do City.
E a verdade é que o Sunderland não estava a ter grandes dificuldades em sair da primeira linha de pressão do City, algo que surpreendia. Aos 18 minutos, Mukiele lançou longo, Rúben Dias perdeu no duelo físico com Brobbey e Donnarumma teve de intervir, depois de uma boa jogada do avançado, ainda que o remate pudesse ter sido melhor. O City estava a correr riscos e não conseguia travar os contra-ataques do Sunderland, que também mostrava eficácia quando precisava de pressionar, como ficou evidente perto do minuto 22.
Com 25 minutos jogados, Haaland estava completamente controlado, muito bem marcado por uma defesa agressiva e física, que fazia questão de impor presença. Até aos 35 minutos, o Sunderland estava a cumprir melhor a sua proposta de jogo do que o City a sua, defendendo bem e criando mais incómodo, enquanto o City circulava muito a bola, mas sem grande propósito. A primeira grande oportunidade de Haaland surgiu apenas aos 36 minutos, quando recebeu sozinho na área, mas rematou fraco, à figura do guarda-redes. Ainda assim, a qualidade individual de Cherki continuava a saltar à vista, com uma habilidade impressionante e uma velocidade que fazia o drible parecer simples. Já nos descontos da primeira parte, Hume teve uma boa oportunidade de cabeça, mas atirou por cima da trave. No balanço final dos primeiros 45 minutos, o Sunderland tinha causado mais problemas ao City do que o contrário.
A segunda parte começou com mais iniciativa do Manchester City. Logo aos 46 minutos, Cherki colocou a bola perto da pequena área e Savinho, com pouco espaço, rematou por cima. Dois minutos depois, Foden isolou Savinho em corrida, mas o remate voltou a sair mal. Aos 54 minutos, Donnarumma voltou a ser chamado a intervir com uma boa defesa. Haaland continuava irreconhecível e aos 60 minutos protagonizou um passe completamente desajustado, resumindo bem a sua noite. Aos 65 minutos, Rodri cruzou para a área e Gvardiol apareceu em esforço, desequilibrado, obrigando Roefs a uma defesa à flor da pele. O jogo tornava-se mais aberto, muito mais “cá e lá” do que na primeira parte, que teve longos períodos de ataque contra defesa. A entrada de Doku aos 70 minutos mexeu com o jogo, trazendo desequilíbrio, drible e agressividade, colocando Mukiele em grandes dificuldades. Pouco depois, aos 74, Gvardiol voltou a assustar com um remate já quase de costas para a baliza, que passou muito perto do poste.
Nos minutos finais, o jogo voltou a fechar. O City assumiu praticamente toda a posse de bola, encostando o Sunderland atrás, com a linha defensiva baixa e todos os jogadores atrás da bola, num cenário que voltou a ser de ataque contra defesa. O jogo tornava-se cada vez mais físico e intenso. Aos 86 minutos, um erro de Aké quase foi fatal, e já perto do fim, aos 88, Gvardiol desperdiçou uma excelente oportunidade ao tentar fazer demasiado quando tinha de rematar de primeira. Já nos descontos, aos 90+4, Reijnders ainda teve um remate fraco que podia ter sido decisivo, mas o marcador manteve-se inalterado.
Pós-jogo
O favoritismo era todo do Man City, não há como fugir disso. Mesmo o Sunderland a fazer uma Premier League muito acima do esperado, este era daqueles jogos em que o City entra sempre como candidato natural à vitória. E mesmo assim não foi nada fácil.
O Sunderland mostrou porque é uma das surpresas da Premier League e de toda a Europa, nesta temporada. Defendeu bem, foi físico, soube sair da pressão e, durante largos momentos, criou mais incómodo ao City do que ao contrário. Haaland esteve controlado, o City teve posse, mas faltou clareza, faltou aquele momento de desequilíbrio bem aproveitado.
Na segunda parte o City carregou mais, mas não foi o suficiente. O empate é justo. O Sunderland sai reforçado e continua a provar que não está onde está por acaso. Jogou sem medo do tubarão.
